Bruxelas Bélgica
A velha história de que tamanho não é documento se
encaixa perfeitamente quando se fala na charmosa e pequena Bélgica. Com
um território pouco maior que o Estado de Sergipe, o reino guarda
preciosidades que vão da história à gastronomia. O que poderia ser seu
maior defeito - proximidade com grandes centros turísticos da Europa, que
fervem de visitantes o ano inteiro - é, na verdade, seu maior aliado. Ou,
pelo menos, deveria ser.
O problema é que pouca gente sabe disso. É só
procurar no mapa para verificar que as distâncias entre a Bélgica e
cidades como Paris, Amsterdã e até Londres são tão curtas que podem
ser percorridas em poucas horas de trem, carro ou avião. Então, porque
não incluir no roteiro pelo Velho Continente um pulinho na Bélgica? É
possível que, ao chegar, o que era para ser uma breve passada se
transformará numa surpreendente viagem.
E não será por falta de conhecimento sobre sua
cultura ou de identificação com seu povo que você desistirá da
empreitada. As pessoas têm a falsa impressão de não saber nada de lá.
Mas quem não sabe que sua capital, Bruxelas, é também a sede da União
Européia? E dos chocolates Godiva, quem nunca ouviu falar, ou melhor,
quem nunca quis provar?
Ainda na gastronomia, os bons de caneco logo lembrarão
que a Bélgica é famosíssima por suas cervejas. São mais de 400 tipos
fabricados lá. Menos conhecidos, mas igualmente saborosos, waffles e
batatas fritas são vendidos naquelas bandas como os melhores do mundo.
A obra de Pieter Brueghel e o artista flamengo Peter
Paul Rubens têm extrema importância para os belgas, mas foram os
desenhos que fizeram mais sucesso internacionalmente. Histórias em
quadrinhos do repórter Tintin e dos Smurfs, lembra? Então, está aí
mais um motivo para conhecer essa encantadora terra que já foi ocupada
por romanos, celtas, espanhóis, austríacos, franceses, alemães...
Com razão, tantos povos quiseram conquistar esse
território hoje dividido em três regiões: Valônia ao sul, Bruxelas ao
centro e Flandres ao norte. Nessa última região, o passado vive nas
fachadas medievais das Grand Places de suas cidades. É nessas praças que
turistas e belgas apreciam as delícias locais e aproveitam minutos de boa
vida.
Além de Bruxelas, Bruges, Gante e Antuérpia merecem
pelo menos um dia de passeio. Como muito bem explica uma amiga de lá:
"Belgas? Não se ouve falar muito deles, mas gostam de boa cozinha
como os franceses, de muita cerveja como os alemães e de esportes como os
ingleses. E são totalmente descontraídos." E ainda tem gente se
preocupando com o tamanho dos países.
Delicados chocolates, finos biscuits, batatas fritas
especiais e waffles divinos encontrados por todo canto, até mesmo em
carrinhos de rua. A culinária belga pode não ter lá grande fama, mas
fica impossível para o turista resistir a seus pratos, ou melhor, suas
guloseimas mais tradicionais. Godiva é o nome mais imponente quando se
fala nesses doces à base de cacau, mas os chocólatras de plantão devem
guardar mais um nome: Wittamer, doceria cobiçada em Bruxelas. Quanto ao
biscoitinho, visto e oferecido em todos os cafés, um tem gostinho
especial: o fabricado na J. Dandoy. Para a sorte do visitante, ambas as
lojas ficam bem pertinho da Grand Place.
Próximo da praça também localiza-se o restaurante
Vicent, um entre os tantos que têm como carro-chefe os tradicionais
croquettes aux crevettes (croquetes de camarão) e les moules avec frites
(um baldinho lotado de mariscos com molho de ervas e deliciosas batatas
fritas). O segredo de elas serem tão boas? São postas numa panela com
óleo quente, quando começam a ficar douradas são retiradas e colocadas
em um outro recipiente com óleo fervendo. O resultado é uma casquinha
supercrocante e o meio bem macio.
Se quiser uma refeição leve, mais rápida e
igualmente saborosa, procure um dos restaurantes da rede Le Pain Cotidien
e experimente o la tartine, espécie de sanduíche aberto com recheios
variados. A cerveja é um caso à parte na hora da degustação das
delícias da Bélgica. São mais de 400 tipos fabricados no país, cada
qual com uma coloração, sabor e história diferente. E para
experimentá-las é preciso fazer como os belgas: apreciá-las com
admiração (e nem sempre com muita moderação).
Aprenda, então, alguns truques e dicas para não fazer
feio. Primeiro vale lembrar que o teor alcoólico delas é bem mais alto
que o das brasileiras (no caso, entre os 3% e 5%). As mais fracas da
Bélgica têm no mínimo 4% e as mais fortes podem chegar a mais de 8,5%.
Há as mais claras (blanches ou blondes) e suaves, as escuras, as chamadas
gueuze (misturam cervejas novas com envelhecidas), as com sabor de fruta
como cereja e pêssego.
Ainda há as famosas trappistes, produzidas por monges,
à moda antiga, nos últimos cinco monastérios ainda em atividade.
Normalmente não vêm muito geladas para não alterar o sabor. No ranking
das mais vendidas, aparecem nomes como Stella Artois, Leffe, Duvel,
Jupiler e as trappistes Chimay, Westmalle e Rochefort. (LR)
Oficialmente Bruxelas está dividida em duas partes:
cidade baixa e cidade alta. Mas bem sabem os turistas que a capital da
Bélgica e sede da União Européia deveria estar repartida entre a Grand
Place e o resto. Logicamente que o charmoso município tem interessantes
museus e outros atrativos espalhados por seu território, mas no enorme
retângulo formado pelos prédios das antigas guildas, corporações de
ofícios da Idade Média, há tanto para ser visto e experimentado que é
simplesmente impossível se cansar de passar por lá.
A cada novo passeio pela Grand Place, considerada uma
das praças mais bonitas na Europa, descobrem-se novos detalhes e a cada
nova descoberta, um suspiro de admiração, uma exclamação e mais uma
foto. Nem tente fugir dessa rotina, é tentador demais. Gótico, barroco,
neoclássico.
Tudo se mistura harmoniosamente nessa praça
construída na era medieval que, mesmo após ser bombardeada pelas tropas
de Luís 14, continua mantendo sua imponência e o elevado número de
visitantes. Agora, porém, não são mais os mercadores que chegam por lá
para trocar tecidos e alimentos, mas visitantes do mundo todo, sempre
passeando, olhando para todos os lados na esperança de não perder nenhum
detalhe.
A empatia entre os turistas e a Grand Place aumenta à
medida em que se deparam com seus concorridos cafés e restaurantes, seus
discretos museus e suas lojas, que vendem de tudo. Dos famosos chocolates
e biscoitinhos a objetos com os personagens das histórias de Tintin.
Comece por visitar o primeiro prédio que irá lhe
chamar a atenção pela suntuosidade: o Hôtel de Ville (a prefeitura). No
interior, enormes tapeçarias que mais parecem pinturas, trabalhos de
marchetaria no chão e enfeites dourados revelam uma elegância
conquistada há muito pelo povo belga. No teto do salão de casamento,
marcas do passado nos brasões das famílias importantes e das
corporações de ofício. Não deixe de ir até o balcão, onde, em
ocasiões especiais, a família real costuma aparecer. De lá, tem-se um
dos melhores ângulos para uma foto da praça.
Na frente do Hotêl de Ville, do outro lado da praça,
fica o Musée de la Ville, importante parada para os amantes de história.
Podem-se ver maquetes da Bruxelas dos séculos 13 e 17 e simpáticas
marionetes, além de todos os trajes do símbolo da cidade: o Manneken
Pis. Mas, antes de se deparar com o cartão-postal, repare numa escultura
feita em homenagem a um herói de guerra do começo do século que fica na
mesma rua, na esquina oposta. As mãos do guerreiro já estão até
desgastadas, pois dizem que aquele que tocar no discreto monumento terá
boa sorte por muitos anos.
Para abrir o apetite e saciar a curiosidade antes de
sentar em um dos cafés e se esbanjar até cansar, dê uma bisbilhotada em
dois pequenos museus: o do chocolate e o da cerveja, paixões nacionais.
Ambos ficam na praça em antigas guildas. Só para aprender um pouco mais
sobre sua fabricação e de como se tornaram autênticos símbolos belgas.
Daí é partir para uma demorada degustação. (LR)
A Antuérpia pode levar a fama da capital da moda, mas
Bruxelas não fica atrás quando o assunto é roupa com design moderno.
Lá, um antigo bairro que foi revitalizado exibe hoje vitrines dos mais
conceituados estilistas belgas. Na Rua Antoine Dansaert, lojas de novos
nomes da moda como Jean Paul Knot e Nicolas Woit.
Também há espaço para os mais conhecidos como Martin
Margiela, que trabalha para Hèrmes e reforma o que não vende de jeitos
bem ousados. Nem se surpreenda de ver uma saia com uma manga saindo pelos
lados, por exemplo.
O passeio é bem diferente e tem para todos os gostos,
mas os preços são para lá de salgados. Vá mais para o finzinho da
tarde. Assim, pode curtir uma cerveja e um bom jazz no L'Archiduc Café,
que fica nas redondezas.
Quem não se importa com os preços, mas prefere a moda
mais tradicional, tem destino certo à sua espera: o Boulevard Waterloo,
uma das mais elegantes avenidas da cidade. Chanel, Dior, Louis Vuitton,
Rolex, Bvlgari, Giorgio Armani...
Se novamente bater a vontade de comprar, vá à Place
du Grand Sablon. Lá, as compras serão de alto nível: antiguidades. Há
uma requintada feira nos fins de semana e inúmeros antiquários à sua
volta, com prata e tapeçaria.
Deixe o consumismo de lado e volte sua atenção para o
aspecto cultural da capital belga. Não há como deixar de visitar o
Musée Royaux des Beaux-Arts, onde fica o Musée d'Art Ancien (com peças
dos séculos 15 a 18) e o Musée d'Art Moderne (a partir do século 19). O
primeiro guarda um dos maiores acervos de arte flamenga do mundo. Numa
sala separada, quadros de Peter Brueghel e as cópias de Peter Brueghel
filho, que ganhou a vida fazendo réplicas das pinturas do pai.
Nesta época do ano, o céu estará azul e a
temperatura, agradabilíssima. Não perca a chance de passear ao ar livre.
Uma dica? O Royal Parc, entre o Palácio Real e a Casa do Parlamento. Suas
tranqüilas alamedas são ótimas para curtir o calmo vaivém de seus
sossegados habitantes.